Por Isabela Cruz, quilombola, estudante de direito e ativista

Quero lhe propor um exercício prático.

Não precisa nem se movimentar muito.

Ouçam as mulheres negras.

Sente-se confortavelmente, e

Olhe a sua volta.

Por cinco minutos, pare tudo o que está fazendo, e pense no mundo ao seu redor, e…  respire.

Experimente respirar profundamente. Esqueça por um instante seus problemas individuais, e amplie um pouco mais a dimensão de onde você se encontra nesse mundo. Nesse tempo e espaço.

Pense no Brasil. Agora pense que você é negro, ou negra, e que mora no interior do estado, . Eem uma área rural do país. Um local distante da cidade, onde que para chegar você precisa andar algumas horas, em estrada de terra, em algum tipo qualquer de transporte rural. Imagine que neste local, o sinal de telefone não funciona muito bem. Não possui telefone público, e a operadora de telefonia não se importa: pagar não é o bastante. e para os jovens que pensem em fazer uma faculdade, ainda que a distância, a internet também não é algo tão comum assim.

Imagine que nesta comunidade ainda não “foi possível” a construção de uma escola. T, todavia, as telenovelas já inflamam o imaginário social coletivo, novelas estas onde mulheres negras atuam em sua maioria como empregadas domésticas, profissionais do sexo, ou em contexto “de época”, como pessoas escravizadas.

Pronto! Ali está.

Por maior o esforço que se faça, é quase impossível fugir aos estereiótipos. Isso porque ainda vemos a reprodução diária de uma visão colonial e racista de quilombos e da população que a compõem. Visão essa que vai refletir diretamente nas decisões políticas, sociais e jurídicas que envolvem a vida nessas comunidades. Exemplo disso é o Julgamento da ADI 3239/2003 atualmente no Supremo Tribunal Federal.

Mas será que eu tenho culpa nisso?

Culpa não. E essa é uma palavra muito forte pra carregarmos conosco. Mas o que podemos fazer para mudar essa realidade? O que temos e podemos mudar é a forma como nos relacionamos com essas pautas. É a forma como nos preocupamos e agimos para melhorar o nosso próprio círculo de convivência.

Como de dentro da nossa casa, podemos nos solidarizar com as demandas dessas populações? Podemos ler sobre formas de combate ao Racismo, não apenas no mês da consciência negra, por exemplo. Responsabilidade Social, talvez seja se importar com estas questões o ano todo.

Podemos realizar atividades com jovens negros e negras dentro e com a construção coletiva de suas comunidades, sejam elas quilombolas, rurais,urbanas, nos centros ou periferias, e principalmente não esquecendo dos/das jovens em privação de liberdade.  

Podemos buscar compreender como o machismo, por exemplo, contribui para o alto índice de violência contra as mulheres, e sobretudo contra mulheres negras.

Podemos nos informar melhor, ou até mesmo conhecer um assentamento de trabalhadores/ as rurais, que produzem diariamente o alimento que chega às mesas nas grandes cidades.

Leia Maria Carolina de Jesus, Conceição Evaristo, Elisa Lucinda, Ariano Suassuna, Manoel de Barros, Amílcar Cabral. Leia também Angela Davis, Frantz Fannon, Nina Rodrigues até a indignação tomar conta de você por motivos diferentes…

Ouça as palavras de Sueli Carneiro, Jurema Werneck, Vilma Reis e Mãe Tiana de Oxóssi. Converse com as mulheres quilombolas de Rio dos Macacos e veja de que Brasil elas falam.

Ouça e ria até gargalhar com Heliana Hemetério sobre as adversidades da vida, e a força das mulheres negras LBT’s, que dia após dia superam suas dores para se manter em pé.

Veja Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez e Dona Maria do Socorro, quilombola do Maranhão, que afirma, que com ou sem reconhecimento no papel, “nós já estávamos aqui, e vamos continuar aqui”, mulheres que falam do Brasil e recitam esperança através do seu povo.

Cante e dance cantigas de Lia, aquela lá da Ilha de Itamaracá, de D. Onette, de Selma do coco, e conte a nossas crianças que os homens maus tentaram, mas não conseguiram nos roubar nossa identidade, tampouco nossa dignidade.

Ouça Naná Vasconcelos , Cantigas de roda, seu Humberto Maracanã, Jongo da Serrinha, enquanto pensa e enquanto descansa. Cante cantigas de Serena Assumpção para suas filhas, cante com Mariene de Castro, as cantigas populares do nosso povo, ensinem-as que nosso povo tem história.

Por um instante pare, pense, e reflita:

nós descendemos de uma população que  vindos de outro continente, reconstruíram aqui seus espaços familiares, culturais, religiosos, e de resistência. E agora, com um sorriso no rosto, conte a “nova geração” que não tenham medo. Digam a ela e a si mesmos que são tempos difíceis os que vivemos, mas que a história é longa, e que nós somos só parte dela.

Diga a nossa geração, que acreditem! Que sorriam, e que lutem.
Por que essa é uma luta dos que vivem! e por fim, com carinho e afeto, digam a eles e elas,
que tentaram nos enterrar, mas não sabiam que éramos sementes, e sementes crioulas. 😉


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Leia Não sou eu uma mulher. Mulheres negras e feminismo, de bell hooks
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